A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA: VIVA O POVO BRASILEIRO, DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, E TRÊS GOLPES DE TIMBAL, DE DANIEL MOYANO

 

Graciela Cariello – Univ. Nacional de Rosario (Argentina)

 

O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias[1].

Nuestra esperanza es sobrevivir en estas palabras que dejamos escritas, de la misma manera que un niño recién engendrado se salvó en Lumbreras para contar la historia[2]

 

Com a primeira das frases em epígrafe, João Ubaldo Ribeiro abre seu romance, com a segunda, Daniel Moyano conclui o seu. Entre ambas as frases, corre a construção da memória do povo, como única via para ele sobreviver à destruição e à morte.

É a partir da idéia de memória como construção coletiva de um povo, que podemos desvendar o processo de elaboração das histórias que estes dois romances sulameri­canos traçam. Neles, a visão de um povo múltiplo, plural, complexo e arrasado, é aos poucos descoberta com um olhar que reúne os fragmentos, pretendendo dar sentido, reconstruir o passado para construir um futuro, sem deixar de ser um olhar plural.

Comecemos por situar as histórias no seu palco: o Nordeste do Brasil, de um lado, o espaço onde a História dos vencedores começou. Nesse espaço, uma ilha: território recortado que evoca, a um tempo, a primeira visão dos vencedores e o isolamento a que os vencidos foram condenados. Do outro lado, o Noroeste da Argentina, um dos espaços por onde penetraram a correntes colonizadoras (conquistadoras) dos espanhóis. Nesse espaço, o cume das montanhas, separado do território continental, como uma ilha. Lugar em que o continente toca o céu, suspenso entre o céu e a terra, espaço de uma irrealidade imaginária. Em ambos os casos, vemos matrizes originárias do espaço americano.

Desses espaços são respectivamente naturais (no caso do argentino, por opção) os escritores. Isto será apenas uma circunstância biográfica, mas a escolha do palco do romance interessa a esta leitura. Será o espaço da margem, do separado, do qual se traça o percurso do olhar. Mais amplo o brasileiro, que abrange outros espaços do Brasil no seu intuito de desenhar um grande quadro da história brasileira. Mais restrito o argentino, que alegoricamente representa a história (a História) secreta do país, através da história secreta (do narrador) oculta na história visível (do cantor). Todas as histórias são uma História: aquela de um massacre e uma restituição – que se repete infinitamente na História da Argentina e também da América toda.

O tempo da produção dos textos foi quando da abertura democrática. No caso do argentino, permanecendo ele ainda no exílio, do qual nunca regressou, e em que morreu. A literatura argentina é, de algum modo, uma literatura de exilados. A história de Daniel Moyano no exílio é a história da recuperação da voz (que está alegorizada em Tres golpes de timbal): durante muitos anos de exílio em Madri, ele não tinha conseguido escrever nem uma letra, pois entre outras coisas, tinha perdido a língua própria (a língua do vencido, o castelhano da Argentina) e não conseguia se exprimir na língua do vencedor (o espanhol da Espanha). No seu romance, esta luta está simbolizada pelo narrador, que para escrever a história precisa recuperar a voz (a canção) do cantor, que (descobrirá depois) é ele mesmo. Vale-se, para tal, da língua do vencedor, e das imagens do povo silenciado.

Viva o Povo Brasileiro é uma narrativa épica, feita pela voz plural do povo; híbrida, pelos pontos de vista argumentativo-ideológicos, pela colocação dos diferentes olhares, representando grupos e indivíduos; polifônica, pela focalização narrativa, pela passagem de um narrador para um outro, pelo relato dentro do relato, pelos diálogos, pela utilização do discurso indireto livre situando os alternantes pontos de vista.

Tres golpes de timbal é uma narrativa lírica, enunciada pela voz singular do narrador (cantor) como intérprete da voz plural do povo, não unívoca, mas harmônica e até sinfônica. É a voz musical, que num acorde inclui múltiplos sons. A escrita dessa história se faz por vários passos: o apagamento da memória individual, o desdobramento do sujeito, a narrativa como transcrição de um outro relato, visual, para este, sonoro como música.

O narrador narra do lugar da enunciação, num presente performativo; está situado na região da intensidade (intensidad) – o cume das montanhas –, e a sua narração é metafórica, simbólica, por vezes alegórica. Para escrever a história de Lumbreras (uma aldeia, que no fim será desvendado ser a própria) ele desce cada mês a Minas Altas, para receber informação, fornecida por uma representação de bonecos, feita pelo “astrónomo mulero”, Fábulo, e que o narrador transcreve em palavras. A história que ele narra é a história de uma canção: a linguagem incontaminada, perante a história mentirosa dos donos do poder, que se apropriam das palavras. Ele recebe de Fábulo, junto com a representação da história pelos bonecos, esclarecimentos sobre a sua tarefa.

 

Los que tienen[...] se apropian de las palabras para escribir una historia mentirosa.[...] Vamos a contar nuestra propia historia, donde la voz de un hombre o un vestido de novia que se lleva el viento valen más que las llamadas hazañas de los fuertes. O una canción, que es el lenguaje incontaminado que usamos en estos pueblos perseguidos para comunicarnos sin peligro (p.36-37).

 

A memória é construída de diferentes maneiras, nos dois romances, mas com o mesmo fim. Em Viva o Povo Brasileiro, a construção é múltipla, pela recuperação de todas as versões, tanto aquela dos vencidos quanto a dos vencedores. Mas nunca é objetiva, é sempre interpretada a partir do olhar do povo. A visão dos vencedores é ironizada e a dos vencidos, valorizada. Os vencidos, porém, não são sempre intérpretes lúcidos da realidade. A memória é complicada pelo trabalho que a cultura do vencedor realiza dentro da cultura do vencido, fazendo com que este, às vezes, assuma o ponto de vista do outro. É o caso emblemático de Amleto, que do servilismo passa ao poder. Mas o povo tem seus heróis, como Maria da Fé, e seus intérpretes, como Dadinha, que com sua mistura de saberes populares, inscreve a voz do povo no relato pela narração oral, e Patrício Macário, que, recuperando sua origem, denega o posicionamento do pai (Amleto) e, se apropriando do instrumento dos vencedores – a palavra escrita – escreve suas memórias, para registrar a história sem eufemismos, “...diferente da mentiralhada oficial e dos relatos dos historiadores panegiriqueiros...” (p.571).

Mas é a oralidade que sempre é apresentada como o lugar da verdade do povo. O cego Faustino, representando o narrador popular da tradição de todos os povos, narra “a história verdadeira” a começar desde as origens do mundo, até a Irmandade da Casa da Farinha e Maria da Fé. Ele insiste em que sua história é verdadeira e que a História dos livros e dos jornais, a História dos papéis, é “falsa ou meio falsa (p.514-515). Patrício Macário, como Dadinha, ao completar também cem anos, decide falar. No entanto, em vez de contar histórias, conta (é o performativo que ele usa) “que sabia de uma certeza (mas esta não é revelada) a qual, por sua vez, lhe dava certeza de uma segunda coisa -que o povo pensa, que o povo pulsa, que o povo tem uma cabeça que transcende as cabeças dos indivíduos, que não poderá ser exterminado...” (p. 662): dá testemunho de uma esperança.

A memória, porém, constrói-se pelos múltiplos discursos, incluído aqueles das elites.

Em Tres golpes de timbal, a construção da memória se faz a partir do ritual do esquecimento da própria história, para assumir a história de um povo. Esta é narrada pelas imagens populares gestuais visuais, sem voz nem letra, dos bonecos, que representam o povo iletrado e silenciado. E é re-escrita pelo narrador personagem, com um gesto de apropriação da língua do vencedor originário (o espanhol), representada pela Gramática de Nebrija e o dicionário, únicos livros que acompanham o narrador em seu ato de escritura. Ao concluir essa re-escritura, o narrador descobre que escreveu a própria história (e a História de seu povo) mas agora vinda da voz do povo. Em espanhol, aliás, “pueblo” tem também o sentido de aldeia, povoado, pelo qual ele está escrevendo a história do povo em dois sentidos: o espaço geográfico originário, e o espaço social.

Também Patrício Macário, para escrever suas memórias, deve antes passar por um esquecimento. Maria da Fé tinha tentado explicar para ele que o esquecimento era a condição para encontrar dentro de si o que lá estava sempre: “como se ele pudesse aprender se soubesse e só soubesse se pudesse aprender” (p.597).

No entanto, enquanto a memória recuperada pelo narrador-cantor de Tres golpes de timbal representa o enunciado do próprio romance (e o narrador fica desdobrado em sujeito de enunciação e sujeito de enunciado, embora sem ele o saber até o final de seu próprio relato), pois Tres golpes de timbal é a um tempo a narrativa da história recuperada e a narrativa dessa recuperação, do processo de enunciação do seu próprio enunciado, em Viva o Povo Brasileiro nunca o leitor terá a completa história. A afirmativa da epígrafe se verifica, e permanecem sempre “histórias”. Em Tres golpes de timbal o final reúne as histórias, e temos por um momento a ilusão da completude. Contudo, no mesmo momento em que o narrador completa a história, e afirma “hice dos viajes a Lumbreras, uno en el tiempo y otro en las palabras”, e ouve “tres golpecitos en la pared” que são os mesmos que na história recuperada representava a mensagem de amor entre o cantor e a mulher amada, e que, diz ele, “los músicos, contando nuestro noviazgo, los reconstruyeron con tres golpes de timbal” (os que dão nome ao livro), ele está ouvindo os inimigos chegarem, mais uma vez, para destruírem o povo e sua memória. “Centenares de Sietemesinos orientarán sus armas contra Fábulo, buscando su corazón para borrar, con él, lo que nosotros fuimos” (p. 288-289).

O espaço da construção da memória da própria voz, em ambos os textos, está simbolizado pelo espaço-recipiente onde se guardam e conservam as lembranças e suas significações, os mistérios e os segredos: a canastra, no brasileiro; o cofre, no argentino.

A canastra será o símbolo da fraternidade, da união do povo para reconquistar seu espaço, e permanecerá sempre misteriosa. No fim do romance, vira “baú”, onde Patrício Macário, que recebeu a canastra misteriosamente, guarda suas memórias. Nunca poderá ser aberta, e uns ladrões, que a roubam após a morte de Patrício, apenas conseguirão espiar dentro dela o futuro. A canastra não guarda apenas o passado e o futuro trágico do povo. Mas os ladrões, apavorados, fogem dela antes de chegar à “leitura” da esperança, que ficará por conta das últimas palavras, orais, de Patrício, e das últimas palavras, escritas, do romance.

O cofre de Tres golpes de timbal será, pelo contrário, a intimidade da história secreta, que irá sendo descortinada aos poucos. A fraternidade está alegorizada pela construção de um instrumento que deverá guardar a canção: este instrumento, feito com a participação de todos os músicos, será um piano. Como ele, tudo deve ser reconstruído com a participação coletiva dos homens anônimos do povo. Os personagens não têm nomes, apenas letras os designam, e seus ofícios (músicos, muleros, enlazadores, astrónomos). Os únicos que têm nome são o Sietemesino (o inimigo, o assassino), Fábulo (o intérprete do silêncio do povo), e a Céfira (a mulher que trará à memória do narrador a raiz de seu próprio ser: o amor). Na história do cantor, ele ama uma mulher e se afasta de seu lado para conhecer a própria origem e a história de seu povo. Quando o narrador acaba de escrever a história, descobre que a mulher é a mesma da sua história atual de narrador. O elo entre as histórias é o amor, mas o narrador apenas consegue saber isto quando sabe como foi engendrado: no meio da destruição do seu povo. Só conseguindo reconstruir essa história do massacre no passado, ele poderá por fim viver o seu presente e construir com seu povo de hoje um futuro possível. Mesmo que sobrevenha uma nova destruição, as últimas palavras do narrador afirmam a esperança: nas palavras escritas permanecerá a memória recobrada, sempre um narrador-cantor poderá reconstruir essa memória.

Em Viva o Povo Brasileiro, a narrativa se faz pela subversão da história oficial e a função de mito de uma história desejada. A história se representa como uma história em que o povo (não os poderosos) é vencido: a invasão holandesa, Canudos, as lutas no Sul, a guerra do Paraguai, o Estado Novo, a ditadura. Mas o povo é chamado a vencer. Pois, como Maria da Fé afirma, “...o povo não morrerá, porque é impossível que o povo morra e é impossível que o povo seja sempre abafado” (p.565). “Viva o povo brasileiro” não é uma exclamação ufanista, é um chamado à vida. Por trás da visão dos vencidos, está o mito do triunfo, que age como desejo;  é o caso do relato heróico da homérica narração da batalha de Tuiuti, ganha pelos orixás, mesmo que tenha sido perdida pelos homens. No fim está a felicidade do povo.

 “La mecánica del mundo es para la alegría”, afirma o astrônomo de Tres golpes de timbal. Nada poderá evitar que, finalmente, o povo destrua o seu destruidor. Sempre poderá vir um outro inimigo, mas sempre o povo poderá reagir e o ciclo recomeçar. Sempre estará, “no meio do temporal, o Espírito do Homem, erradio mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz da grande baía”. São as palavras que fecham (mas o futuro permanece aberto) o romance de João Ubaldo. A canastra pode ser “soterrada pelo sangue, pelo sangue, pelo sangue” , mas tudo está “sempre podendo acontecer”.



[1] Jõao Ubaldo RIBEIRO. Viva o Povo Brasileiro, 14.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Todas as citações são feitas seguindo esta edição. No texto se indica a página.

[2] Daniel MOYAND. Tres golpes de timbal. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1990.p.289. Todas as citações são feitas seguindo esta edição. No texto se indica a página.